Reportagens Especiais

Tabaco responde pela metade do faturamento no campo

Levantamento feito pelo IBGE mostra que mesmo com a diversificação de culturas...


Vale do Taquari - Considerado o Vale dos lácteos, a região também mostra sua força com aquilo que brota da terra. Na agricultura, o faturamento de 30 municípios em 2011 foi de R$ 258 milhões. A venda de leite do mesmo período registrou R$ 196,5 milhões. Arroz, cana-de-açúcar, melancia, tomate, amendoim, batata-doce, mandioca, milho, trigo e tabaco enchem a cesta da agricultura familiar e impulsionam a movimentação de dinheiro no campo. Entre todas as culturas produzidas, o fumo corresponde por quase a metade do faturamento anual. O estudo foi feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e leva em consideração os dados apontados pelas secretarias municipais da Agricultura.  
O coordenador regional da Secretaria Estadual do Desenvolvimento Rural, Pesca e Cooperativismo (SDR), Mauro Stein, diz que os números representam a força da diversidade no campo. "Além das principais cadeias produtivas, como o leite, suínos e aves, o Vale do Taquari possui uma série de atividades agrícolas representativas, como essas pontuadas no levantamento."
É justamente esta produção um dos um dos principais motivos que seguram as famílias no campo. Por meio das agroindústrias, o processamento de produtos e a venda direta ao consumidor, nas feiras rurais, são as formas encontradas pelas famílias que, como formiguinhas, movimentam grandes cifras. A comercialização nas feiras do produtor já é uma realidade em 30% dos municípios. Nesse contexto, algumas culturas, como  a mandioca - ou aipim -, elevam a condição do Vale como o maior produtor do Estado, com indústrias de beneficiamento que vendem a produção local para grandes redes nacionais de supermercado.
Empreendedorismo e "boa vontade" não são suficientes. Stein diz que a localização do Vale do Taquari favorece o escoamento dessa produção. Perto da Região Metropolitana, e divisa com outras grandes regiões do Estado, como a Serra e o centro, a estruturação do mercado ocorre naturalmente. "Assim é mais fácil produzir e comercializar os produtos."

Mandioca do Vale: a número 1 no Estado
Embora não sejam as campeãs de produção no campo como milho, arroz e cana-de-açúcar, existem culturas que chamam a atenção pelo destaque e projeção que dão à região. Uma delas é a lavoura de aipim, também chamado de mandioca. Em Cruzeiro do Sul, ela é até tema de festa. A safra de 2011 contabilizou R$ 23,3 milhões em 10,5 mil toneladas da raiz. A produção é tanta que a cidade exporta mandioca para a Seasa, de Porto Alegre, e abastece grandes redes de supermercado, com lojas em todo o país.
Osório de Borba (22) é gerente administrativo de uma agroindústria de Linha Sítio. Com mais 20 funcionários, agregou valor à mandioca. Eles compram de produtores do município, descascam, embalam e revendem para grandes redes de supermercado. "São 30 mil quilos processados por mês que saem daqui direto para as prateleiras de supermercados." Segundo Borba, Cruzeiro do Sul é o líder estadual na produção da raiz.
Na vizinhança da empresa da família Borba, terras aradas e mudas florescendo. Esta é a época em que a mandioca começa a brotar, para ser colhida a partir de janeiro do ano que vem. Pedro César Schmitt (44) revela o motivo do sucesso da produção local. "Não existe outra cultura que dê maior rentabilidade que a mandioca. É só plantar e colher." Mas o "só" de Schmitt implica esforço braçal, pois o método de plantio ainda é dos antigas - praticamente todo manual. "A mandioca tem muitos segredos; quem os conhece, vai bem. Mas é um trabalho que exige muito da gente."

Tomate plantado a quatro mãos
Muçum é o "Goiás" do Vale. É de lá que vem a maior produção de tomate. A família Franchini, em Linha Alegre, bem na divisa com o município de Santa Teresa, cultiva o fruto há 30 anos. Danilo (59) e Ivete (55) Franchini foram aqueles que deram início à olericultura. A produção começou de forma tímida e dividia espaço com o plantio da soja e de frutas como mamão e banana. Anos depois, foi intensificada com a ajuda do filho Marcos (34) e da nora Luciane (32). Hoje toda a família atua no cultivo de tomate em uma área que conta com cinco mil pés da fruta. As variedades escolhidas para produzir são duas: saladete apollo e longa-vida.
De acordo com Danilo, a estimativa é colher cerca de 30 toneladas nesta safra. "A produção está boa, e os tomates estão bonitos, graúdos." A cultivar tem mercado fixo, sendo vendida para a Ceasa de Caxias do Sul, em Garibaldi, Lajeado, Muçum e Encantado. Para atingir o sucesso, o "dono" do tomate diz que plantá-lo exige bastante mão de obra. "São vários detalhes com a planta, como fazer o raleio (tirar o excesso de frutas no mesmo galho), poda, tratamento, irrigação, colheita, enfim, é bem trabalhoso."
O técnico da Emater/RS-Ascar, Jairo Bellini, explica que a safra do tomate teve início em setembro e deve se estender até o mês de maio. Informa que hoje, seis produtores atuam com a olericultura - em 2011 eram dez. A queda se deu em decorrência de muitos agricultores abandonarem o tomate para plantar uva de mesa.
Mesmo assim, a projeção é colher mais de 70 toneladas no município. Ele cita o solo e o microclima como fatores que contribuem para o êxito da atividade. "Isso permite produzir na entressafra, obtendo melhores preços." Também reforça os cuidados com a condução, o manejo e os tratos culturais; fundamentais na qualidade e produtividade dos frutos. "O plantio de tomate em Muçum apareceu como uma alternativa de renda de extrema excelência, já que os agricultores se dedicam ao máximo ao trabalho que resulta em belos frutos."

Tabaco: o "mal" necessário
Considerando tudo aquilo que foi produzido na região no ano passado, 47,9% do faturamento líquido da lavoura vem do tabaco - R$ 123,7 milhões. Os cinco municípios que mais cultivam o insumo principal do cigarro são, nesta ordem, Boqueirão do Leão, Progresso, Sério, Doutor Ricardo e Cruzeiro do Sul. Em Boqueirão, cuja produção soma nove mil toneladas em folhas, a cultura do fumo faz parte da tradição das famílias do campo.
Na propriedade de Celso Campiol (61), há 30 anos ele é o produto principal de renda da família. No ano passado, a família, formada por Campiol, a esposa, o genro e a filha plantou cem mil pés. Essa é a produção média deles. "Na hora da colheita, nós contratamos uma empresa de Progresso. Mas o resto é tudo conosco." Nos sete hectares da família, cada 15 quilos de tabaco rendem R$ 105. Por isso, Campiol nem pensa em mudar de atividade. "Nós dedicamos uma vida inteira para o tabaco e nos preocupa a condição do Brasil em apoiar a restrição ao consumo de cigarro."
O agricultor comercializa sua produção em Santa Cruz do Sul e Venâncio Aires - para duas empresas multinacionais que fornecem as sementes e insumos para o plantio e manejo, situação semelhante que ocorre nas propriedades criadoras de suínos e aves no sistema de integração.

Taquari: o arroz "barriga-verde"
Em 2011, o município gerou 18,6 mil toneladas de arroz. No Vale, é o maior produtor. Mas essa história começou a ser escrita na década de 1990, quando muitos catarinenses (barrigas-verdes) vieram para o município a fim de explorar a cultura, permanecendo até o momento. O principal destino da produção de arroz é a comercialização para engenho local da Cooperativa Certaja. Quando sobra,  a venda ocorre também para engenhos do litoral sul catarinense.
O catarinense Jairo de Oliveira (46) planta arroz há 30 anos. Ele garante ter sido o primeiro que se mudou para a região com a meta de cultivar o cereal. "Na época que vim morar em Taquari, mais uns três produtores me acompanharam. Hoje existem três mil hectares e, nestes, cerca de 90% estão nas mãos dos barrigas-verdes."
Oliveira ficou em Taquari por causa das condições climáticas. Ainda assim, o "caruncho" na produção é a dificuldade de vender. No ano passado, o preço ficou abaixo do custo. O agricultor espera, na próxima safra, em março de 2013, uma colheita de dez toneladas. O preço por quilo é de R$ 0,70. "Não pretendo parar, tenho uma área preparada para aumentar a produção com cerca de 600 hectares."

Rodrigo Nascimento
rodrigon@informativo.com.br
Colaboração
Carina Marques e Renata Leal

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