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Luta contra o câncer: Lara ganha a segunda chance

Há pouco mais de um ano, Lara Bertoglio (21) soube que estava com câncer. Ela se tornou uma sobrevivente

Créditos: Cristiane Lautert Soares
- Frederico Sehn

Lajeado - "Mesmo com tantos motivos pra deixar tudo como está; nem desistir, nem tentar, agora, tanto faz, estamos indo de volta pra casa." A canção "Por enquanto", composta por Renato Russo e eternizada na voz do cantor e de Cássia Eller, foi a trilha sonora do retorno de Lara Bertoglio (21) ao lar, em 20 de setembro deste ano.


Recepcionada com a música pelas amigas no Aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre, Lara estava de volta, um ano e dois meses depois de descobrir um câncer neuroendócrino; 69 dias após receber um transplante de fígado - sua segunda chance.


Em 10 de outubro, ela fez a primeira postagem no blog Minha segunda chance, que criou para contar a batalha que travou contra a doença e ajudar quem esteja passando por problema parecido com o seu. "Eu não queria contar a história por contar ou para que tivessem pena de mim. O motivo era maior do que eu. A ideia é fazer com que as pessoas vejam como as coisas são difíceis, que se pode lutar; que o que aconteceu comigo pode acontecer com quem está perto."


Ela ainda se lembra do horário exato em que seu pai a acordou, por telefone, e a avisou que deveria permanecer em jejum para a realização de uma ecografia no abdômen. Eram 7h56min de 15 de julho de 2013 - o dia em que descobriu a doença. Devido a dores abdominais, que tinham início na madrugada e continuavam por vários dias, a estudante realizou o exame numa segunda-feira, em Lajeado, sua cidade natal. À época, morava longe da casa dos pais e cursava Psicologia na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).


A ecografia mostrou um nódulo na região do baço e do pâncreas, com aproximadamente seis centímetros. O fígado também apresentava um nódulo do mesmo tamanho e outros menores. No mesmo dia, uma tomografia confirmou os tumores. À tarde, em consulta em Porto Alegre, ela recebeu a notícia de que, provavelmente, eram malignos, o que se confirmou após biopsia realizada na manhã do dia seguinte: Lara tinha um tumor neuroendócrino.


"Para mim, foi meio diferente, foi tudo ao mesmo tempo, tudo muito rápido." Após uma bateria de exames para saber se a doença havia se instalado em mais órgãos, ela passou por uma cirurgia, no dia 25 daquele mês, para a retirada dos tumores. Em seguida, faria o tratamento. Só mais tarde soube que nem todos os tumores do fígado foram retirados, uns haviam sido queimados.


Mesmo doente, Lara encerrou o semestre com boas notas e, nos meses seguintes, continuou os estudos a distância. Tudo estava programado: após o término dos seis ciclos de três dias do tratamento - de 21 em 21 dias -, a estudante retornaria à rotina na universidade: "Eram seis sessões de quimioterapia e deu."


Mais más notícias
Com a dica de uma amiga que também havia enfrentado o câncer, Lara raspou o cabelo - máquina 3 - para evitar vê-lo cair ao longo do tratamento. "O meu tipo de quimioterapia era bem agressivo. Foi horrível." Na metade dos ciclos, ela soube que os tumores queimados não tinham diminuído. Se em três meses, eles permanecessem do mesmo tamanho ou crescessem, mais sessões de quimioterapia teriam que ser enfrentadas.


"Foi uma das piores notícias. Eu já tinha tudo planejado", conta. "Como ninguém me disse isso? Eu pedi para saber de tudo." No fim do ciclo, uma notícia pior: os tumores haviam crescido. Ela passou por quimioembolização do fígado, um tratamento que deveria ser mais eficiente, por ser direcionado ao órgão prejudicado, mas sofreu sangramentos que a impossibilitaram de fazer novos procedimentos e deram chance para que os tumores crescessem ainda mais.


A quimioterapia oral com dois tipos de remédio foi sua terceira tentativa, mas o tratamento também a deixava mal a ponto de ser hospitalizada. "A única coisa que me deixava feliz era ver que meu cabelo estava crescendo." A felicidade, contudo, durou pouco. Assim como a primeira, a quarta quimioterapia - no cateter - também causava queda de cabelo. Foi durante este período que a família começou a pensar no transplante de fígado como alternativa.


Contra 0% de chance
Apesar de o oncologista e o cirurgião de Lara não indicarem o transplante, a família procurou uma médica que realizava o procedimento. Para saber se podia entrar na fila de espera, Lara realizou exames e foi informada de que havia entre 50% e 75% de chance de recidiva da doença. Para ela, qualquer percentual de chance de viver sem câncer era melhor do que ter 0%.


Os exames indicaram que Lara podia fazer o transplante, mas a médica havia mudado de ideia. O oncologista sugeriu que a quimioterapia continuasse em Lajeado, por questão de comodidade. Mais uma vez, o pedido da paciente - saber de tudo - não foi atendido pelos profissionais. "Eu estava sendo mandada para casa para morrer, mas não sabia. Metade da minha família queria me contar; a outra não queria tirar de mim as esperanças."


O que Lara também não sabia é que outro médico - seu gastroenterologista e "anjo da guarda" -, Roberto Reckziegel, havia conversado sobre o caso com equipes médicas de outros estados - Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina - e todas se mostravam favoráveis ao transplante de fígado.


Foi em Santa Catarina que ela conseguiu entrar para o topo da lista de espera. Em maio deste ano, Lara, o pai e a mãe mudaram-se para Blumenau - pacientes na lista devem permanecer até 70 quilômetros de distância do hospital. Em 15 de junho, Lara foi chamada para o transplante, mas o fígado doado era inviável. "Foi um soco no estômago." Mais dias de espera e incerteza vieram até que, no dia 14 de julho, ela foi novamente chamada. Desta vez, o transplante poderia ser feito. Lara, finalmente, recebia sua segunda chance.


Além do transplante, ela precisou passar por mais três cirurgias devido a complicações que começaram uma semana após o primeiro procedimento cirúrgico. Só em 20 de setembro ela pôde voltar para casa. Hoje, divide na internet as experiências que viveu.


'Tá tudo, assim, tão diferente
Lara é uma sobrevivente. Pertence à estatística da redução da taxa de mortalidade por câncer em 15% desde 1990, mas não é só um número. Ela faz parte do grupo de pessoas que, graças aos novos tratamentos e possibilidades da ciência, como o transplante, são chamadas de "novos sobreviventes".


Segundo o psicoterapeuta Vicente Augusto de Carvalho, em palestra sobre o adulto sobrevivente e seus aspectos emocionais, ministrada na III Jornada de Psico-oncologia do 2º Congresso Multidisciplinar em Oncologia do Instituto do Câncer do Hospital Mãe de Deus, os sobreviventes podem ser entendidos como aqueles que vivem sem sintomas ou sem tratamento e os que sobrevivem por anos com a doença.


Independentemente do conceito no qual se encaixe, o sobrevivente é alguém que foi transformado. Como diz a letra da música de Renato Russo, Lara sabe que "alguma coisa aconteceu; tá tudo, assim, tão diferente". Ela teve que aprender a lidar com a tristeza, com a ansiedade, com a incerteza. "Tu começas com uma esperança e ela vai indo embora." Todo o processo de tratamento "não era viver; era sobreviver para, um dia, poder viver."


A incerteza - sobre a vida, sobre a cura, sobre a morte, segundo Carvalho, é o grande dilema das pessoas que sobrevivem à doença. O profissional ressalta que se pode aprender com as experiências, ainda que negativas. "Tentar ser igual ao que se era é negar o aprendizado. As experiências têm que nos transformar", explica. Durante o processo, Lara assimilou muita coisa. Hoje, é mais atenta ao seu corpo, ao que ele está tentando dizer. Aprendeu a "não passar batido pela vida", a externar sua opinião e não guardá-la somente para si. "A única coisa que a gente tem de concreto é a vida. A gente tem que dar mais valor para ela."


Cada vitória no tratamento era valorizada; cada etapa, priorizada. "Um dia atrás do outro. Com o transplante, por exemplo, a prioridade era a fila; depois, a recuperação." Lara também conta que precisou aprender a lidar com a dor. "Existe uma pressão para que não se perca o sorriso. As pessoas tentam ajudar porque é muito difícil ver o outro sofrer, mas, para o doente, é importante chorar, botar para fora."


Além da equipe de profissionais que cuidou de Lara em Santa Catarina e do apoio dos amigos, ela destaca a importância da família na jornada que enfrentou. "É fundamental ter alguém do lado, que acaba entendendo o que os amigos não entendem." Quando fala no namorado, Gabriel, com quem está há quatro anos, fica difícil conter a emoção. "Ele não me deixou em nenhum momento."


A importância da informação
Embora tenha pedido para saber de tudo o que se passava com sua saúde durante o período de tratamento, Lara não foi atendida. "Teria sido muito mais fácil no início", acredita. Para o oncologista Stephen Stefani, "só tendo uma ideia real do que o tratamento pode oferecer é possível que o paciente decida." Ele ressalta que há um cuidado todo especial tomado pelos profissionais na hora de comunicar más notícias. "Falar a verdade não é ser cruel, é ser honesto. Sem a informação, em algum momento haverá a quebra de confiança e o paciente não pode ter ao seu lado alguém em quem ele não confia."


Segundo Stefani, ao mesmo tempo em que dá a má notícia, o médico deve, imediatamente, oferecer uma alternativa e mostrar que o paciente não está desamparado. "Preciso mostrar que ele tem apoio e que eu sei quais são as armas para tentar consertar seu problema."


O oncologista também destaca que médicos e familiares devem evitar a "conspiração" do silêncio. "Há pessoas que ainda acham que o silêncio vai proteger o paciente, quando este é inteligente o bastante para perceber que alguma coisa está errada. O modo certo de protegê-lo é através da informação e não da mentira."


O blog Minha Segunda Chance
As linhas de Lara estão disponíveis aqui. Por lá, ela conta todo o processo pelo qual passou - do descobrimento da doença ao transplante. Suas postagens têm gerado um retorno positivo. Ela recebe mensagens, comentários e tem o blog compartilhado por usuários do Facebook que se comoveram com a história. Outro contato do blog é o e-mail blogminhasegundachance@gmail.com.


Ouça parte do depoimento de Lara

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