Reportagens Especiais

De Santa Catarina a Turquia, o Vale se espalha pelo mundo

Gaúchos do Vale migram mais para Santa Catarina e Paraná, diz IBGE.


Vale do Taquari - Pelo menos 9.562 pessoas nascidas na região moram em outros estados ou países. É o que indica o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com base no cruzamento de informações sobre o lugar de nascimento e de residência da população. Os dados fazem parte dos resultados de nupcialidade, fecundidade e migração e famílias e domicílios do Censo 2010. Outras 529 pessoas nascidas no Vale do Taquari moram no país, mas não há especificação de qual estado. O restante, 327.653, reside no próprio Rio Grande do Sul.
Os estados que receberam mais nascidos no Vale são os vizinhos Santa Catarina e Paraná. De um total de 337.744 pessoas nascidas na região, 4.354 moravam em solo catarinense em 2010. Outras 2.387, no Paraná. Juntos, os dois estados do sul do país correspondem a mais de 70% dos migrantes do Vale em outros estados do Brasil. Pouco mais de 4% dos migrantes, 385, moram no exterior. Destes, 170 nasceram na cidade mais populosa da região: Lajeado.
Seja para conseguir conquistas profissionais, estudar ou movido por um ideal romântico - para acompanhar o marido ou a parceira -, o movimento de migração muda o mapa e altera possibilidades. Transforma destinos para sempre. Foi assim com Flora Darde, que saiu com 18 anos de Lajeado e retorna para a cidade como empresária para revender seus acessórios. É a volta que a vida dá, mesmo nos movimentos de migrações.

A vida em Floripa
Há nove anos, Flora Darde juntou a bagagem e foi com o namorado, Evandro Daltoé Weber, também de Lajeado, para a vizinha Santa Catarina. Ambos queriam estudar. Flora foi fazer faculdade de moda e quis unir o útil ao agradável: na cosmopolita "Floripa", conseguiu inspiração para elaborar acessórios que fazem as mulheres suspirar. Hoje, aos 27 anos, ela os vende para Lajeado e cativa cada vez mais a clientela daqui. Casou com Evandro e virou empresária de sucesso. Evandro é administrador, e eles trabalham juntos na loja de acessórios e na marca de t-shirts. A designer continua gaúcha, mas ela e Evandro buscaram seu cantinho no coração de Santa Catarina. Os dois moram no Centro, à beira-mar, em um apartamento perto do ateliê. "Eu vou trabalhar a pé. É uma cidade grande, que lembra um pouco o interior."
Como saíram novos de Lajeado, os dois incorporaram o jeito autônomo de viver das grandes cidades. Florianópolis respira tendências. Ao caminhar pelas ruas e pela praia, a designer presta atenção nas cores, formas, no jeito de vestir e no comportamento e assim desenha os adornos e coleções que fazem a cabeça das mulheres: uma caveira, um colar de pérolas. Tudo vira moda. Em termos profissionais, Florianópolis é mais avançado do que o Rio Grande do Sul, por isso Flora continuará lá. Mas gosta das clientes daqui, que estão cada vez mais contemporâneas, sabem o que querem e gostam de novidades. Ela acompanha suas "mulheres" pelas redes socais. Gosta de "sentir" seus estilos. Perceber e acompanhar onde estão. Perto do mar e vizinha ao Estado onde nasceu, Flora articula seu sucesso com o marido. A felicidade está no chão em que resolveram morar.
Foi preciso uma boa dose de coragem para Flora e Evandro terem dado o "pulo do gato" tão novos. No Facebook dela, Flora homenageia sua própria ousadia e por tabela, de outros migrantes, com um poema de Guimarães Rosa: "O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem".


Mapa da migração
Conforme o IBGE, mais de 73% dos nascidos no Vale que saíram do Estado moram nos estados da Região Sul
- 9.177 moram em outros estados
- 529 moram no Brasil, sem especificação
- 327.653 moram no próprio Estado
- 385 moram no exterior
- das 337.744 pessoas que nasceram
no Vale do Taquari, 2,87% moram em outros
estados, e 0,11% mora no exterior

Ar seco, coração aberto em mundo milenar
A Turquia recebeu muito bem Cíntia Delazeri Dincer, que assim como Michele, elegeu a terra milenar para morar e criar raiz. Com 34 anos, a lajeadense foi tripulante de navio por quatro anos e meio e conheceu seu marido, Soner Dincer. Ela casou-se com ele em maio deste ano. Jurou que não voltaria para o mar. O casal escolheu como lar a Turquia. "Em dois meses estávamos com casa organizada e trabalhando em uma empresa de exportação. Meus colegas falam inglês. Não há pressão em aprender a língua turca, que é diferente das que derivam do latim." Cíntia conta que na cidade não há roubos e existe respeito em relação à família. O turismo é forte, e a comida é farta. Ela encontra problema com o ar seco e o trânsito, pois são muitos motoristas. "Também tem as diferenças culturais e religiosas. Como nós brasileiros somos muito abertos, tudo fica mais fácil."

Michele participará de reality na Turquia
Dos filhos do Vale que moram no exterior - 0,11% -, Michele Kafer Gultan escolheu um lugar exótico e intrigante para morar. Agora está sendo desvendado pela novela global. É a Turquia. Michele mora há sete anos em Istambul. Casada com o empresário Levent Gultan, Michele tem uma agência de turismo de luxo. Entre os clientes famosos, Gloria Kalil. Michele conta que teve de se adaptar aos hábitos do país e não foi fácil. "Apesar de parecidos com os brasileiros por ser um povo alegre e hospitaleiro, os turcos têm costumes diferentes, e levou muito tempo para me adaptar. Fora a língua, que é muito difícil, distância ainda maior do Brasil é a comida. Agora amo tudo isso."
Istambul é considerada a Nova York do Oriente por ser muito cosmopolita. A cidade é moderna. Bem mais europeia do que se imagina. Michele já se considera cidadã e criou a Turistambul para mostrar aos brasileiros a cidade na sua visão. "Como sou brasileira, eu entendo as curiosidades e as preferências de meus conterrâneos. Gosto de mostrar a Istambul vibrante, cheia de estilo, apesar da história de mais de 2,6 mil anos."
A lajeadense foi selecionada para participar de um reality (em canal tipo GNT) que mostra diversos países na versão de alguns brasileiros que ali residem. "Me encontraram pela Gloria Kalil, ela foi uma cliente minha no verão passado." Ela ainda não pode dar detalhes do programa, mas está empolgada. Michele vem uma vez por ano a Lajeado. Quando folga, vai a Paris ou Milão. A filha, Yasmin, de 5 anos, fala inglês, português e turco, nesta ordem. "Eu ainda pretendo voltar ao Brasil. Mas ainda não chegou a hora de mudar."



Andréia Rabaiolli
andreia@informativo.com.br

Ermilo Drews
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