Reportagens Especiais

Argentina: o novo corredor para o Rio Grande do Sul

Série de reportagens da Associação dos Diários do Interior apresenta os caminhos do contrabando de cigarros

Créditos: Pedro Garcia/Associação dos Diários do Interior
- Inor/Ag. Assmann

Uma bateria de documentos é exigida de quem ingressa em território brasileiro a partir da Argentina através da fronteira Alba Posse-Porto Mauá (RS). A
travessia sobre o Rio Uruguai é feita em menos de 10 minutos de balsa. Além de apresentar os papeis, que serão devidamente analisados e carimbados pelos servidores aduaneiros, possivelmente o motorista será requerido a abrir o porta malas e terá a bagagem vistoriada.


Tudo parece funcionar bem por ali. Mas não muito longe, o mesmo rio serve de porta de entrada de cargas de cigarros paraguaios contrabandeados, que cruzam
a divisa em pequenas embarcações ao largo de qualquer fiscalização. Dois jovens balseiros que fazem a travessia dezenas de vezes todos os dias contam, com uma incrível naturalidade, que os barcos carregados são facilmente avistados da aduana e que o transporte se dá, inclusive, durante o dia. "Aqui passa de tudo, o dia inteiro",
relata um deles, aos risos.


O que para a dupla é rotina vem chamando a atenção das autoridades nos últimos anos. Trata-se da consolidação de uma nova rota utilizada pelas quadrilhas de cigarreiros para chegar ao Rio Grande do Sul, um dos principais mercados consumidores do País.


Pela rota tradicional, percorrida há vários anos, as cargas entram no Brasil pela fronteira Ciudad del Este/Foz do Iguaçu e seguem por rodovias como a BR-277 e a BR-163, passando próximo a municípios como Dionísio Cerqueira e Francisco Beltrão, cruzam o oeste catarinense e ingressam no Rio Grande pela região de Iraí para, então, serem distribuídas a todo o Estado. Já pelo novo corredor, o cigarro é despachado pela Argentina e ingressa diretamente no RS atravessando o Rio Uruguai em embarcações, em pontos próximos a localidades como Porto Mauá, Porto Xavier e Porto Lucena.


A nova rota do contrabando de cigarros



A estratégia começou a ser identificada em operações da Polícia Federal por volta de 2013. Uma delas foi a Operação Carrara, que naquele ano prendeu mais de 20 pessoas ligadas a grupos criminosos que utilizavam esse corredor. "Um dos grupos investigados era uma família, e os pedidos eram feitos por uma menina de 13 anos", relata o delegado Alessandro Maciel Lopes, titular da PF em Sant?Ana do Livramento.


No início deste mês, a Operação Travessia 14 fez 32 prisões na região de Santo Ângelo. Parte das quadrilhas desarticuladas também fazia uso da rota argentina.
De acordo com Lopes, uma das razões para o crescimento desse percurso alternativo é o aperto na fiscalização na rota tradicional nos últimos anos. Outra possível explicação é a facilidade de cooptação de agentes da repressão argentina, diante da crise econômica enfrentada pelo país vizinho.


Leia também: Contrabando de cigarros: um crime cada vez mais organizado






A engenhosa máquina do contrabando

1 Embora a fabricação de cigarros no Paraguai seja legalizada, a maior parte da produção serve ao contrabando. Tanto é que as fábricas, em sua maioria, se localizam estrategicamente próximas à fronteira com Foz do Iguaçu, em cidades como Hernandarias, a 16 quilômetros de Ciudad del Este. Com um índice baixo de tabagismo, os 6,8 milhões de habitantes do Paraguai absorvem apenas uma pequena parcela dos 45 bilhões de cigarros produzidos anualmente no país - a maior parte abastece o comércio brasileiro. Ironicamente, as fábricas paraguaias são abastecidas por tabaco brasileiro, exportado legalmente ou, em alguns casos, desviado por atravessadores do canal de exportação. 32 fábricas de cigarros funcionam no Paraguai, a maioria com mão de obra brasileira.

2 O Brasil não importa cigarros legalmente do Paraguai. Isso significa que qualquer maço paraguaio vendido em território brasileiro ingressou no País de forma irregular, sem recolher os devidos impostos. Após deixar as fábricas, as cargas são transportadas para o Brasil, a maior parte via Rio Paraná, Lago de Itaipu ou Rio 2
Uruguai. 600 caixas de cigarro são destruídas diariamente pela Receita Federal de Foz do Iguaçu.


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O transporte fluvial dificulta a atuação da fiscalização. As quadrilhas utilizam embarcações motorizadas de pequeno porte, que são mais velozes, e atuam principalmente à noite. A travessia no Rio Paraná dura não mais do que cinco minutos. Já em alguns pontos do Lago de Itaipu pode chegar a cerca de duas horas. Ao longo dos 170 quilômetros de extensão do lago, são milhares de portos, todos mapeados pela Polícia Federal. 2,9 milhões de maços de cigarro contrabandeados foram apreendidos pela Polícia Marítima de Foz de Iguaçu em 2014.


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No Brasil, os volumes são descarregados em portos clandestinos e armazenados em depósitos. A mão de obra é praticamente toda paraguaia. Em questão de horas, o cigarro estará dentro de carros, geralmente roubados, para ser escoado pelas rodovias do País. Toda a logística é acompanhada por grupos de olheiros, que reportam a movimentação dos órgãos de repressão, e batedores armados, responsáveis pela segurança das cargas. 15 mil pessoas atuam no contrabando na região de Foz do Iguaçu.


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Diferente do passado, quando veículos do contrabando andavam em comboio, hoje a estratégia é se misturar ao fluxo e seguir em alta velocidade. Menos comuns, caminhões e carretas circulam por estradas marginais, mas não muito afastadas da rota principal para evitar chamar a atenção. Para conseguirem chegar ao destino, os grupos se valem de corromper servidores públicos e da violência - há registros de carros que se jogam contra barreiras da Receita Federal e de batedores que perseguem agentes para recuperar cargas apreendidas. 62,52% das apreensões de cigarros em 2014 ocorreram no Paraná. 

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