Geral

Shopping tem novo leilão sem compradores

A segunda tentativa de venda do centro de compras da teve a aposta mínima de aproximadamente R$ 27 milhões - pouco mais da metade dos R$ 60 milhões esperados na primeira tentativa de leilão

Créditos: Lucas George Wendt
DÚVIDAS: futuro do Shopping Lajeado permanece incerto - Lucas George Wendt

Lajeado - Marcado pela expectativa, o segunda investida de leilão dos 70% do Shopping Lajeado iniciou sem a perspectiva a aparente de interessados.

E assim encerrou. Na plateia, lojistas, ex-funcionários do Shopping, advogados e nenhum licitante para a compra da parte do estabelecimento que foi objeto de novo leilão na tarde de ontem (6). Sem licitantes na ata do leilão presencial, o leiloeiro oficial designado pela Justiça para executar os dois processos, Luciano Scheid, diz agora é necessário aguardar as outras determinações judiciais. Scheid é responsável por comunicar à Justiça a inexistência de lances. No primeiro leilão, o do dia 22 de novembro, a tensão estava explícita.

Os advogados do M. Grupo conseguiram encaminhar documento para invalidar a execução do leilão naquela ocasião. A liminar do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, proferida pela juíza Mônica Di Stasi Gantus Encinas, havia suspendido a investida, horas antes da realização do leilão. Naquela mesma tarde, em 22 de novembro, os advogados da RB conseguiram suspender a liminar, fazendo com que a magistrada reconsiderasse seu juízo sobre o caso e determinasse a realização do pregão - que ocorreu sem licitantes.

A Associação dos Lojistas do Shopping Lajeado acompanha de perto todas as movimentações do processo. O advogado César Walmor Bublitz, que representa mais de 60 empreendimentos do centro de compras é quem fala. Ele explica que os próximos passos serão indicados no próprio processo, e a expectativa é de que os advogados das partes, Grupo RB e M. Grupo se reúnam em breve. Na avaliação do advogado, "a situação é grave.

A administração está sob responsabilidade de uma empresa falida". Isso prejudica a credibilidade do espaço, que já viveu tempos mais prósperos quando quedas de energia e má funcionalidade de equipamentos como elevadores e escadas rolante não faziam parte do dia a dia. Pelo menos essa é a opinião dos empresários que têm empreendimentos no Shopping e também de um dos gerentes de uma das maiores lojas do local, ouvidos pela reportagem do jornal O Informativo do Vale. Este último, diz que a queda de circulação após as polêmicas de gestão e falhas de administração é aparente. "Vemos que muitas salas estão fechadas", fala.

A falta de investimentos, gera frustração e insegurança para os lojistas. "Os empreendimentos não podem parar", diz Décio Manoel Flach, proprietário estabelecimentos sediados no Shopping. "Não sabemos o quê, mas alguma coisa tem que acontecer", avalia. Para o gestor, a situação é preocupante. Ele defende a necessidade de uma mobilização mais forte para sensibilizar o Poder Judiciário, já que a demanda maior dos lojistas é a transferência de administração.

Nesse sentido, o grupo já avançou, e determinações judiciais fizeram com que retrocedesse duas vezes. Bublitz, o advogado, explica que foram movidas ações, ao longo dos últimos meses, da Associação de Lojistas contra o M. Grupo com três diferentes objetivos. O primeiro deles é a transferência Fundo de Promoção e Propaganda (FPP) para a gerência dos próprios do lojistas, sob a alegação de que o M. Grupo não passa às lojas os repasses necessários.

A segunda demanda do grupo de lojistas era a garantia judicial da prestação de contas trimestral do M. Grupo. Ambas as ações foram compreendidas pela Justiça, com parecer favorável aos lojistas. A gestão do FPP foi transferida. No entanto, a prestação de contas trimestral determinada não acontece, segundo os lojistas.

O objetivo maior dos comerciantes do Shopping Lajeado é o de que a administração do condomínio fique a cargo de outra empresa enquanto o processo de transferência de propriedade do Shopping corre na justiça. Os lojistas anseiam pela destituição da síndico atual, que ainda é o M. Grupo.

Na opinião do advogado César Bublitz, é necessário fazer com que a Justiça entenda a gravidade da situação, uma vez que as decisões proferidas até o momento dão a entender as avaliações da justiça não levam em consideração proporção real dos fatos. A confirmação deste entendimento fica aparente. Duas decisões indicando a transferência da administração para outras gestoras foram proferidas pelas Justiça e, a seguir, foram derrubadas. A primeira delas foi para a Resolve Condomínios, e a segunda, mais recente, para a PróOverseas, no mês passado.

Mesmo com o insucesso dos leilões, Décio Flach garante que os lojistas vão seguir se movimentando, e espera que o Grupo RB continue também. "'Vamos estudar o que pode ser feito de prático por meio da Associação", esclarece. Ele verbaliza a preocupação com os investimentos que fez no local. Na opinião dele, são as pessoas que ainda ainda mantém o local em funcionamento. "Que bom que temos um povo que é apaixonado pelo Shopping Lajeado", fala, esperando que a situação do único shopping da região seja melhor no futuro. "Mas a gente não consegue entender como uma empresa falida consegue respirar por tanto tempo com aparelhos", finaliza.

Como não houve lance nem comprador interessado pela segunda vez, a titularidade do empreendimento segue com o Grupo RB. Isso porque o M. Grupo investiu na Justiça com uma liminar, concedida, para se manter à frente da gestão administrativa do centro comercial.

O M. Grupo soma mais de uma centena de ações judiciais em seu desfavor. Os processos movidas por trabalhadores que não recebem suas garantias em dia e empreendedores que se sentem prejudicados pela gestão do conglomerado. A reportagem do jornal O Informativo do Vale não conseguiu contato com a organização para conversar sobre os leilões e o futuro do shopping center em Lajeado.

Relembre o caso
Nos últimos anos, a imprensa estadual noticiou falhas de administração do local por parte do M. Grupo que, na opinião dos empreendedores que investem no Shopping Lajeado e mantém estabelecimentos no local, afeta a credibilidade dos negócios. Problemas na execução de projetos, cobranças de fornecedores, credores e investidores foram os pivôs do colapso do conglomerado de empresas, que tinha na multiplicidade de áreas de investimento a garantia do sucesso.
- Em 2012, o M. Grupo iniciou sua expansão no Rio Grande do Sul, por meio da contração de empréstimos com credores para executar os empreendimentos. Esse foi o ano, também, em que a economia brasileira começou a se retrair. O conglomerado sentiu os reflexos dessa involução;
- Em agosto de 2012, a administração central do M. Grupo veio a Lajeado anunciar o investimento na compra de 70% das ações do UnicShopping, com dinheiro vindo de empréstimos. Além da mudança de nome e de gerência, a empresa previa a ampliação do prédio, construção de um hotel e de um heliponto para pousos e decolagens de helicópteros;
- O primeiro empreendimento do grupo que deu sinal de que as coisas não iam bem foi o Shopping Gravataí, aberto com falhas estruturais, em 2013;
- Em abril do mesmo ano, o M. Grupo adquiriu 100% das ações do Shopping Lajeado. Na época o local ainda passava por grandes transformações estruturais e anunciava a vinda de lojas de departamento;
- Em 2014, problemas de fluxo de caixa iniciados no ano anterior resultaram em atrasos e impasses na execução de projetos imobiliários do M.Grupo no país;
- O ano de 2015, na história da empresa, foi marcado pela oficialização de associações de compradores de empreendimentos que exigiam suas garantias por meio de ações na Justiça;
- Em 2016 o Grupo perdeu a administração de empreendimentos nas cidades de Bento Gonçalves, Santa Cruz do Sul e Xangri-lá. O Shopping Lajeado permaneceu sob gerência do M. Grupo.
Em dezembro de 2016 surgiram indícios de um possível leilão do Shopping Lajeado. Na época, a empresa negou.

Sequência de eventos em 2017
Em 2017, uma série de eventos afetou a empresa. Em fevereiro, a Justiça determinou a falência da Magazine Corporações - braço da organização que administrava o estabelecimento de Gravataí.
- Em Lajeado, o controle do centro de compras de foi passado para o Grupo RB, do Ceará, que reunia credores do M.Grupo. Por força de uma liminar, em março deste ano, o M. Grupo voltou a administrar o shopping. A associação de lojistas recorreu da decisão;
- A Resolve, com sede na cidade, chegou a administrar o espaço por alguns dias em fevereiro;
- Durante o ano, os lojistas de Lajeado se reuniram para evitar cortes da energia elétrica da estrutura. A justificativa da Globalmalls (empresa do M.Grupo) indicava a inadimplência dos lojistas como a causa para o acúmulo de dívidas de quase R$ 1 milhão somente em energia elétrica;
- Em julho de 2017, os 30% do Shopping Lajeado pertencentes à Ápice, uma das credoras do M.Grupo, foi a leilão duas vezes. As investidas aconteceram no mesmo dia em que o Shopping Gravataí, outro empreendimento, foi leiloado. O lance mínimo para o Shopping Lajeado era R$ 42,4 milhões. O pacote de empreendimento do M. Grupo leiloado na ocasião somava R$ 231 milhões. Como não houve licitantes para os 30% em Lajeado, o percentual estrutural ficou consolidado sob responsabilidade da Ápice;
- Um dia antes da realização do leilão dos 70% do centro de compras pela RB, a Justiça determinou a transferência da administração do Shopping para a PróOverseas, empresa de Porto Alegre especializada na gestão de condomínios comerciais. Dias depois, nova liminar do M. Grupo derrubou a decisão de mudança de gestão proferida anteriormente;
- A maior parcela do Shopping, os outros 70% do Grupo RB, foi a leilão em duas etapas. A primeira delas, em 22 de novembro. O lance mínimo foi de R$ 45.398.163,93;
- Dezembro, 2017: ontem ocorreu a segunda tentativa de leiloar os 70%. O valor inicial de lance foi 60% do lance mínimo da primeira tentativa, de novembro - cerca de R$ 27 milhões. Também não houve interessados.

Comentários

VEJA TAMBÉM...